sábado, 12 de março de 2016

O parto

Eu já estava com generosos 3 cm de dilatação, que me vieram ao longo de dois dias sem qualquer manifestação dolorosa. Seis de fevereiro era um sábado de sol, céu azul e nuvens brancas. Churrasco delicioso na casa de Tati e Plínio, regado à muita música nostálgica. Eu e Fernando fazíamos a cesta quando senti um sopapo lá embaixo que me fez pular da cama. Eram 16:30. “Fernando, Fernando, acorda! Acho que a bolsa estourou!”  Ainda meio sonolento, Fernando mal acredita no que eu digo e então eu digo novamente: “A BOLSA ESTOUROU!!!”  Então é ele quem pula da cama e corre para me trazer uma toalha. E eu corro para o banheiro para me certificar que de fato era isso. Chegara mesmo o momento? Não parecia que a bolsa tinha estourado, não descia tanto liquido...  “Chama a minha mãe, Fernando!” E... Sim, era a bolsa! Ligamos pra Dra. Ana Cristina enquanto o Fernando terminava de arrumar a malinha da maternidade e eu rebolava em cima da bola de pilates. Mal  a Dra. Ana retornava nosso contato e minhas contrações já estavam com intervalo de 3 minutos. Era hora de ir para a maternidade. Os 3 minutos entre as contrações eram suficientes para descansar, lembrar da respiração correta e tomar fôlego para concentrar na dor. Naquele pequeno longo trajeto de casa ao hospital, eu estava muito, muito feliz. Conseguia mergulhar na dor com grandeza, com entrega, com generosidade. Fernando mal acreditava no que estava acontecendo. Ele mal cabia em si.

Chegamos à maternidade e a coisa começou a ficar um pouco mais tenebrosa na minha subjetividade. “É sério que eu preciso descer do carro e dar 10 passos até a recepção?” Aquilo o parecia impossível, uma escalada de Everest. Mas, vamos lá. Mal acredito quando chego lá. “Parece que não estou mais conseguindo respirar... Como é mesmo? Como é mesmo?”, eu já não estava mais em mim. Era apenas uma dor e um inconsciente. Como se tivesse tomado um psicodélico potente, não suportava quando falavam comigo “por que, cargas d’água, as pessoas falam comigo?” Era a única coisa que eu pensava com irritação, sem conseguir dizer nada  diante de qualquer pergunta. Mas eu entendi que falavam que era preciso sair do banquinho da recepção e ir até uma sala onde a equipe médica faria o exame para saber o quanto eu estava dilatada... Estava ficando muito difícil!  “É sério que eu preciso  dar 10 passos até essa salinha? Eu posso enfrentar a dor, mas não, não posso caminhar até essa sala ali ao lado. Simplesmente não vou conseguir dar nem um passo!!!”, eu pensava. Peguei fôlego e subi mais um Everest até chegar lá. E verificar que estava com 5 cm de dilatação. “Pouco me importa isso... Apenas me deixe quietinha com a minha dor!”. E começou a vir uma aflição e calor insuportáveis. Eu não conseguia responder ou olhar as pessoas,  apenas tinha vertigens de imagens em que eu arrancava o meu vestido com uma tesoura e prendia os cabelos para cima. Parecia sufocada de calor e de dor. Minha mãe prendeu os meus cabelos desesperadamente com uma bexiga de festa que encontrou em sua bolsa. Eu não conseguia verbalizar, mas intimamente fazia festa de agradecimento à minha mãe por compreender a minha urgência em prender os cabelos. Essa era a minha mãe. “Mãe, eu amo você e a sua enorme empatia!”, pensei.

Só faltava agora arrancar aquele bendito vestido. Mas me diziam que agora era preciso chegar até o quarto do hospital. “É sério que eu preciso ir até esse quarto? Eu quero apenas ficar quieta com a minha dor!”.  Sair do lugar era um terror. Eu já não sabia quando respirar e por vezes achava que estava afogando sem ar. Não sabia mais contabilizar quando a dor ia e quando a dor vinha. Simplesmente  não estava conseguindo me concentrar, e isso dificultava enormemente meu processo. A dor chegava me pegando de surpresa, eu não estava mais conseguindo me preparar nos intervalos. “Não, eu não consigo ir para o quarto, por favor, me deixem aqui!!”.  Fernando rapidamente me colocou numa cadeira de rodas e correu pelo hospital até o quarto. Eu desci da cadeira vomitando muito e arrancando o meu vestido, um dos momentos mais aliviantes de todo o processo. Eu queria apenas vomitar e arrancar o vestido, ficar nua, ficar nua e me concentrar na minha dor. E ali fiquei. A enfermeira que entrou me levou para o chuveiro, eu nem precisava, estava muito feliz ali mesmo, numa relação de amor com tudo o que coloquei pra fora e que me aliviou. Mas, quando a água quente do chuveiro bateu nas minhas costas, eu finalmente caí de volta a mim por alguns minutos. Tal como dentro do carro, eu agora conseguia aproveitar o pouco intervalo das contrações para descansar e ritmar minha respiração. Finalmente era eu, água, a minha dor, a minha respiração, o universo, e nada mais.

Aos poucos, o intervalo entre as contrações simplesmente desapareceu por completo. E eu saí de mim novamente. Parecia apenas eu e minha dor, minha dor, minha dor, minha dor. Cadê o tempo pra respirar? Na minha mente, eram pouquíssimos segundos entre uma contração e outra. Quando a Dra. Ana Cristina me levou pra cama e identificou 7 cm de dilatação, eu já não existia. Era apenas a dor e mais dor. Fernando me lembrou que eu poderia gritar. E então eu gritei. Gritei o canto do parto. Aquele grito de agonia e de alívio. Não demorou e eu optei pela analgesia. Fernando, cujas mãos eu segurava como se só assim conseguisse pegar ar, respirar, confirmou se era isso mesmo que eu queria, já que havíamos combinado de ele insistir comigo pra eu fazer tudo natural. Mas eu precisava respirar, precisava voltar a mim. Mas, aff,  tinha que subir mais um Everest até o centro cirúrgico pra tomar a peridural!!. Depois vim a compreender, eu estava com contração de 1 em 1 minuto. Ao entrar no centro cirúrgico, senti uma paz. O que eu jamais poderia imaginar antes. Mas, aquele silêncio, aquele frescor, o abraço cuidadoso da Dra. Ana Cristina... Eu não queria mais sair dali. Tomei a peridural às 19:30. A Dra Ana me sugeriu retornar para o quarto... “O que? Não e não! Não quero mais sair do lugar!” Fernando e Amanda vieram ficar comigo. E então pude, nos últimos 3 cm de dilatação que restavam, viver a magia do parto. A analgesia não tirou minha dor,  muito menos meus movimentos. Me permitiu sentir a dor e o meu corpo de modo sublime...

Às 21:00 eu já estava com 10 cm de dilatação e a Dra Ana me estimulou a começar o movimento expulsivo.  Eu estava sentada na banqueta de cócoras e o Fernando estava sentado atrás de mim, me abraçando. Parecia perfeito. Mas eu simplesmente não estava conseguindo fazer a força certa para o bebê sair. Fui então para a cama obstétrica. Nunca imaginei que fosse preferir aquela posição. Aos poucos fui conseguindo entender o movimento que deveria fazer. Mas, parecia demorar uma eternidade...  As dores começaram a voltar. O Gael encaixou e o Fernando se empolgava porque via a cabecinha dele quase saindo... Mas eu sentia agora muita dor. E,intimamente, começava a entrar em pânico, com medo de não dar conta. Quando a Dra. Ana falou “deixa o Gael fazer o movimento dele”, parece que eu consegui senti-lo, sentir o que ele queria e onde eu deveria pressionar. E foi indo, foi indo e então veio o Gael! Quando colocaram ele no meu colo, eu não conseguia acreditar! Quis puxa-lo para o meu peito, mas ainda tinha que esperar pra cortar o cordão umbilical. O Gael chorou muito até o exato momento em que eu falei “Oi Gael! A mamãe está aqui! Nossa, como você é lindo!”. Foi mágico, porque ele simplesmente parou de chorar ao ouvir a minha voz. Aquilo parecia tão surreal! Me emocionei muito! Quando pude enfim coloca-lo em meu peito, ensinei ele a pega com boca de peixe. E ele já começou a sugar um pouquinho! Foi tão lindo, não existem palavras possíveis para expressar o que eu sentia.

Fui para o quarto e encontrei minha família linda. Eu estava pura energia e puro amor. Precisava abraçar cada um (cada um mesmo! Pai, mãe, irmãs, sobrinhos, cunhada, sogro, amigos...)  pra dizer “eu te amo, você é muito importante para mim!”. Era uma necessidade, como uma imensa sede, cada abraço daquele. Não posso descrever o quanto o Fernando e a minha mãe foram perfeitos e fundamentais em cada um desses momentos. Os dias que se seguiram foram, simplesmente, dourados. Tinha ainda o sangue que descia, o desconforto urinário e tudo... Mas aqueles dois dias na maternidade selavam-se na minha memória como uns dos mais felizes da minha vida. Senti-me acolhida pelo universo. Senti-me plena. Diferente. Eu não conseguia mais me lembrar de quem eu era antes. O que me movia antes? O que eu sentia? O que eu pensava antes? Que absurdo! Parecia que o mundo se resumia àquele quarto! Parecia que o tempo não Ia mais correr. Estava tudo total e completamente suspenso. Como se eu não precisasse de mais nada nessa vida. Eu olhava o Gael, sentia meus pulmões, e aquilo simplesmente me bastava. Tudo isso de uma forma muito assustadora, porque eu não estava a fim de romantizar nada. Era na minha fria objetividade que aquele sentimento de magia me roubava. Eu resolvi me deixar levar. Porque nada mais seria como era antes.


quinta-feira, 10 de março de 2016

A gestação



O desejo de ser mãe batia forte. Dava vontade de largar tudo e sair correndo para ter um bebê. Eu e Fernando planejamos a gestação. Calculamos datas, sonhamos... E mal acreditamos quando ficamos sabendo que eu estava grávida. Ainda mais porque o primeiro exame deu resultado “indefinido”. Como assim? Como pode uma “gravidez indefinida”? Ou se está grávida ou não se está... Mas, depois vim a saber, tratava-se do início da gravidez, quando o embrião ainda está no seu processo de nidação. Nessa incerteza, eu não poderia, afinal, subir a pedra da Gávea na viagem que fizemos para o Rio de Janeiro no dia seguinte ao exame. Mas eu poderia contar tudo pessoalmente à minha amiga –irmã Lian e passar os dias na cidade maravilhosa pensando que maravilhoso seria se essa gravidez afinal se confirmasse. Na semana seguinte, já de volta a Goiânia, o exame positivo foi certeiro. E desde então eu já comecei a ser imensamente feliz.

Não que seja um mundo colorido isso de estar grávida. Eu achei que fosse. Mas, não é bem assim. Lidar com o imprevisível sempre foi pra mim uma das coisas mais difíceis, e isso é o que define a gestação. O período gestacional me parecia uma louca roleta russa. Tudo poderia acontecer. E já era grande a minha responsabilidade por uma nova vida. Tomar vitaminas, comer isso e não comer aquilo, dormir do lado esquerdo, não correr, não tropeçar, não pular, não comer trash food,  comer 5 frutas ao dia, comer proteínas, usar repelente 3 vezes ao dia, não inalar o veneno do repelente , preparar o corpo para o parto normal, preparar o espírito para o puerpério... Era angustiante não poder estar sobre o controle de tudo. A gestação me colocou de frente com os meus medos mais profundos. Seria eu capaz de gerar? Seria eu capaz de parir? Seria eu capaz de construir uma pessoa humana? Quem eu era de fato e quem eu seria agora?  Cada dia das minhas 39 semanas eu lidava com um medo diferente. E, exaustivamente, com os mesmos medos. Tomava o cuidado de “explicar” para o bebê o quanto esses medos em nenhum momento significavam o contrário, o quanto ele era desejado.

Ele? Ou talvez ela? Minha intuição sempre me disse que  eu engravidaria de um menino. Mas eu não estava muito interessada em saber o sexo. Cheguei a cogitar deixar para descobrir na hora. Engraçado, com esse imprevisível eu lidava muito bem. Porque, realmente, para mim não fazia a mínima diferença saber o sexo do bebê.
 Mas a madrinha, Amanda, nos presenteou com um exame de sexagem no início da gestação. Então entramos no clima da festa de revelação do sexo. Um médico, numa ultrassom, tinha arriscado que seria menina e Fernando chegara a divulgar como notícia no grupo whatsapp da família a notícia. Mas eu fiquei receosa. No final das contas, minha intuição estava certa! Era um
menino! A festa de revelação envolveu toda a família, os primos já começaram a abraçar aquele pequeno na minha barriga com muita energia e amor.

Começamos então a pensar nomes... Pesquisamos alguns e poucos nos interessaram. Estávamos tendendo a colocar Lucas, mas algo parecia não estar certo. Um dia uma prima minha disse que o nome é o bebê quem nos diz. Eu deveria sentir para saber a resposta. E um dia qualquer, bem no meio de uma tarde, num momento em que comecei a beber um copo d'água, veio claro em minha mente: "Gael. Ele simplesmente se chama Gael." E assim foi.

Os dias se passaram com aquela imprevisibilidade dura. Com mudanças no meu corpo e na minha vida que mal se notavam no dia a dia, mas que iam deixando para trás toda uma realidade... Durante esse processo, tive a sorte de ter muito apoio dos meus amores. Pessoas que me incentivaram a conhecer melhor a possibilidade do parto normal, que me chamaram a atenção para a importância de se nascer uma mãe que sabe se doar ao filho já na gestação, que cuidaram da minha saúde e da minha alimentação, que fizeram um monte de chá de fraldas... Tive a sorte de conhecer o meu companheiro Fernando como pai, como um pai incrível, pai que se dispõe a fazer manualmente cada detalhe do quarto, que não perde uma ultrassom, que faz curso gestacional, que se empolga com o projeto canguru, que conversa e beija o filho todo santo dia através da minha barriga, que tira fotos dessa barriga crescendo todo santo mês, que abraça comigo o projeto do parto normal. Minha inevitável solidão de gestante, era aplacada a cada momento. Durante a gestação, dentre tantos medos, conheci o imenso medo de perder o Fernando. Imenso de uma forma nunca antes experimentada.